Belo Horizonte viveu, nesta sexta-feira (4/9), um dia marcado por duas mobilizações para enfrentar a crise da população em situação de rua. Enquanto o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) articulou governo, empresas e sociedade civil em busca de soluções, o IBGE encerrou na capital uma etapa decisiva para o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua.
Segundo levantamento da UFMG, 16.115 pessoas vivem atualmente nas ruas de Belo Horizonte. A Região Leste concentra 29,3% desse público e aparece como um dos principais territórios de atenção.
MPMG reúne diferentes setores
Na sede do Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot-MG) e do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG), o procurador-geral de Justiça, Paulo de Tarso Morais Filho, reuniu representantes do poder público, da iniciativa privada e da sociedade civil.
Além disso, promotores, integrantes do Tribunal de Justiça, empresários, movimentos sociais e entidades de direitos humanos participaram do encontro.
A proposta é clara: transformar articulação em ações concretas.
Entre as iniciativas apresentadas está o Canto da Rua Cidadão, da Pastoral Nacional do Povo da Rua. O programa trabalha em três frentes: abordagem territorial, atenção intersetorial e acesso à moradia por meio da metodologia Moradia Primeiro.
Projeto prevê R$ 20 milhões
A iniciativa terá duração de dois anos. Para isso, pretende captar R$ 20 milhões e alcançar cerca de 6 mil pessoas.
O projeto também prevê 3.600 atendimentos diretos e 500 inserções em moradias ou hospedagens. Além disso, inclui qualificação profissional, inclusão produtiva, orientação jurídica e produção de conhecimento.
“Estamos diante de uma grande obra em favor da cidade e das pessoas”, afirmou o procurador-geral.
Região Leste no foco
A escolha da Regional Leste como território prioritário segue os dados levantados recentemente sobre a população em situação de rua da capital.
A região concentra 29,3% desse público. Ao mesmo tempo, possui uma grande extensão territorial e enfrenta limitações na oferta de equipamentos públicos e serviços socioassistenciais.
Por isso, a proposta busca aproximar atendimento, moradia e outras políticas públicas de quem mais precisa.
Censo nacional
Enquanto o MPMG articula novas ações, o IBGE encerrou, nesta sexta, a prova-piloto do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua.
Durante cinco dias, entre 31 de agosto e 4 de setembro, os recenseadores percorreram diferentes áreas de Belo Horizonte. Eles passaram por ruas centrais, periferias e unidades de acolhimento, como os Centros Pop e o Abrigo Maria Maria, no Lagoinha.
A equipe aplicou questionários e testou diferentes estratégias de abordagem. Belo Horizonte foi escolhida como um dos cinco municípios que participam da etapa experimental.
Segundo a Prefeitura, a capital possui uma rede institucional estruturada e experiência em levantamentos municipais.
Dados e novas políticas
Para o IBGE e a Prefeitura, a prova-piloto também serve para identificar o que funciona antes da realização do censo nacional, previsto para 2028.
Além disso, os dados poderão ajudar municípios a comparar realidades e planejar políticas públicas de forma mais precisa.
Desafio crescente
Os números mostram a dimensão do problema. Segundo o levantamento da UFMG, 16.115 pessoas vivem em situação de rua em BH. O número coloca a capital mineira na terceira posição entre as capitais brasileiras, atrás de São Paulo e Rio de Janeiro.
O contingente cresceu 36% em cinco anos. Enquanto isso, a rede municipal oferece cerca de 2 mil vagas em abrigos, número que não atende toda a demanda.
O levantamento também mostra um perfil marcado pela desigualdade. 82,5% são pessoas pretas ou pardas. Além disso, 42,5% apontam a falta de moradia como motivo para estar nas ruas, enquanto 33,8% citam a ruptura familiar. Apenas 39,4% possuem alguma fonte de renda.
Duas frentes, um objetivo
As iniciativas do MPMG e do IBGE seguem caminhos diferentes. Porém, elas têm o mesmo objetivo: enfrentar a crise com informação, planejamento e ações concretas.
De um lado, o censo busca revelar o tamanho e as características do problema. Do outro, a articulação entre poder público, empresas e sociedade civil procura transformar esses dados em atendimento, moradia, qualificação e inclusão.
A atuação do Ministério Público também acompanha as medidas relacionadas à ADPF 976/DF, em tramitação no STF, que trata da responsabilidade do poder público na proteção da população em situação de rua.
Assim, Belo Horizonte coloca duas frentes em movimento: uma para conhecer melhor a realidade e outra para transformar esse diagnóstico em políticas públicas.
Porque a rua não precisa ser destino. Com dados, planejamento e compromisso, é possível construir caminhos para devolver dignidade e novas oportunidades a quem hoje vive nessa condição.
O Sagrada O Sagrada – Jornal do Bairro Sagrada Família e Região – Belo Horizonte
