Sempre me encantou o paradoxo desta que eu considero uma das melhores músicas do Depeche Mode, não por acaso uma das minhas bandas de synthpop inglesas favoritas: “Enjoy the silence”. É que, ao mesmo tempo em que as letras enaltecem o valor do silêncio, da reclusão e da meditação, a melodia segue num crescendo a ponto de despertar a emoção e a vontade de extravasar.
Entender o simbolismo do silêncio, especialmente para um jornalista, comunicador, que ganha o pão do dia a dia com as palavras, como eu, é ainda mais complicado. Somos treinados para abrir a boca, falar, discutir, duvidar, questionar, narrar, contar. A necessidade de expressão, para nós, é uma cachoeira sempre em curso, impossível de estancar, impossível de conter.
E o que dizer do silêncio na conotação da censura, do “cale-se”, aí nós temos ojeriza, pavor completo. Mas Dave Gahan e Martin Gore me mostraram que o silêncio pode, sim, ser degustado, pois à medida que o adotamos, passamos a escutar melhor não só o que o outro diz, mas o que a vida em nosso entorno quer nos transmitir, agindo com mais parcimônia e, consequentemente, mais sabedoria.
A poluição sonora nos induz a poluirmos nosso próprio interior com o eco de palavras excessivas e desnecessárias. Palavras que saem do nosso tumultuado estado de espírito para, talvez, causar ruídos e nos atingir em seguida. Quando em silêncio, conseguimos ver cada palavra se formando a partir de cada pensamento que nos visita, como no poema “The Guest House” de Rumi: welcome and entertain them all.
O Sagrada O Sagrada – Jornal do Bairro Sagrada Família e Região – Belo Horizonte
